"A pressa é inimiga da perfeição"
"Quem tem pressa come crú"
É difícil lutar contra a pressa quando a ansiedade se torna sufocante, quando os olhos embaçam e fica impossível ver com clareza o movimento lento do mundo à sua volta. Quando o universo parece imóvel, o pulso acelera, o sangue martela o cérebro, o ar em volta se torna rarefeito. E é aí que o ansioso se torna vítima indefesa dessa tal de pressa, que o devora numa só dentada, crú e imperfeito.
NHACT!!
"Decifra-me ou devoro-te"
Inspirado por Pat Lávsqui (A Cética Desabusada)
"Adoro as coisas simples. Elas são o último refúgio de um espírito complexo." - Oscar Wilde
segunda-feira, 23 de maio de 2011
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Saudades
Eu sinto saudades.
Sinto saudades de coisas que não vivi, que não senti.
Sinto saudades de sonhos que nunca deixaram de ser apenas sonhos. Sonhos que nem eram meus.
Sinto saudades de coisas que nem sei dizer o que são. Coisas que não existiram, que jamais existirão.
Saudades de um mundo inventado, de um tempo imaginado.
Saudades de um mundo inventado, de um tempo imaginado.
Uma saudade sem nome, sem forma, sem cor.
terça-feira, 3 de maio de 2011
Falemos de Números
É uma matemática simples:
Eu falo em pessoas, você me responde em números.
Eu falo em sentimentos: bagunçados, desorganizados, confusos e conflitantes.
Você me responde em itens bem separados, organizados e delimitados.
Cada vez que ouço sua voz distorcida ao telefone, já prevejo todo o discurso, todos os argumentos e toda a impotência diante deles. Como se argumenta contra uma certeza absoluta e imutável? Contra os argumentos rígidos e matemáticos que desprezam o sentir?
Como se argumenta contra números?
Números não falam de pessoas!
Para mim, um mais um pode ser dois, ou três, ou quatro milhões, ou até mesmo azul!
Nunca fui bom em matemática, você sabe...
Ainda me lembro da frase: "Você não sabe? Então pensa!"
Pois é, quanto mais eu penso, mais essa matemática não faz sentido pra mim. Um monte de números mortos, isso sim.
E sabe o que me entristece? É ver que cada dia mais você se afasta daquele ser pensante que eu tanto admirava pra se tornar um amontoado de números e estatísticas. Porque eu sei que esse não foi sempre você, e por isso tenho esperanças de que ainda se lembre desse ser de antes. Antes dos números, das notas, das turbinas de aviões. Esse ser... humano.
Quando lembrar desse ser, e os números perderem a importância, me avise. Eu sinto falta daqueles tempos.
Quando voltar a pensar nas pessoas como únicas, e não como unidades, me avise.
Quando voltar a falar de sonhos, e não de probabilidades, me avise.
Até lá, let's talk numbers.
Eu falo em pessoas, você me responde em números.
Eu falo em sentimentos: bagunçados, desorganizados, confusos e conflitantes.
Você me responde em itens bem separados, organizados e delimitados.
Cada vez que ouço sua voz distorcida ao telefone, já prevejo todo o discurso, todos os argumentos e toda a impotência diante deles. Como se argumenta contra uma certeza absoluta e imutável? Contra os argumentos rígidos e matemáticos que desprezam o sentir?
Como se argumenta contra números?
Números não falam de pessoas!
Para mim, um mais um pode ser dois, ou três, ou quatro milhões, ou até mesmo azul!
Nunca fui bom em matemática, você sabe...
Ainda me lembro da frase: "Você não sabe? Então pensa!"
Pois é, quanto mais eu penso, mais essa matemática não faz sentido pra mim. Um monte de números mortos, isso sim.
E sabe o que me entristece? É ver que cada dia mais você se afasta daquele ser pensante que eu tanto admirava pra se tornar um amontoado de números e estatísticas. Porque eu sei que esse não foi sempre você, e por isso tenho esperanças de que ainda se lembre desse ser de antes. Antes dos números, das notas, das turbinas de aviões. Esse ser... humano.
Quando lembrar desse ser, e os números perderem a importância, me avise. Eu sinto falta daqueles tempos.
Quando voltar a pensar nas pessoas como únicas, e não como unidades, me avise.
Quando voltar a falar de sonhos, e não de probabilidades, me avise.
Até lá, let's talk numbers.
terça-feira, 19 de abril de 2011
O Mendigo
Vestido em trapos imundos ele vagava pelas ruas da velha cidade.Vasculhava os montes de lixo, procurava debaixo das pontes, nos bueiros, nos becos desertos.
Andava de casa em casa, pedindo restos. Restos de sonhos que haviam se perdido, restos de infância, restos de uma felicidade há muito esquecida no meio dos entulhos da velha cidade de pedra fria.
Assim seguia o velho andarilho, colecionando pedaços de memória, juntando fragmentos de vida, de desejos ocultos, tentando construir uma existência própria.
Andava de casa em casa, pedindo restos. Restos de sonhos que haviam se perdido, restos de infância, restos de uma felicidade há muito esquecida no meio dos entulhos da velha cidade de pedra fria.
Assim seguia o velho andarilho, colecionando pedaços de memória, juntando fragmentos de vida, de desejos ocultos, tentando construir uma existência própria.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Grades de Vidro
Adentramos a sala da pequena casa.
De todos os moradores da pequena cidade, "Seu" Antônio Ferreiro era o mais curioso.
A sala era pequena, confortável. Uma sala comum, de uma casa comum, diria-se, se não fosse por uma peculiaridade. No centro da sala, ocupando o espaço de mais ou menos um metro quadrado, havia uma magnifica gaiola de vidro com uma mulher mais magnifica ainda em seu interior.
No teto da gaiola estavam pendurados pequenos pássaros de vidro, que esvoaçam sobre a esplêndida mulher, que parecia não ter notado nossa presença. Continuava a olhar para o sol que se punha lá fora, através da janela.
- Não é linda? - perguntou "Seu" Antônio.
- Por que está nessa gaiola?
- Ela vive aí - respondeu - Quando ela veio pra cá, ela era tão bela, tão pura. Tive medo que se perdesse, que sumisse no mundo, que algo de mau pudesse lhe acontecer. Por isso construí essa gaiola de vidro. Para protegê-la do mundo terrível que há lá fora. Dentro da gaiola ela não conhece a dor ou o sofrimento. Está livre da maldade que habita o coração dos que vivem do lado de cá das grades. Nunca nada de mau poderá tocá-la.
Graças as barras de vidro é que ela se tornou a criatura esplêndida que é, pois somente dentro de tal estufa poderia florescer tão bela flor. Não existe no mundo mulher alguma que se compare a ela! Dentro dessa gaiola ela floresceu, e dentro dela murchará, sem ser maculada pelo horror que há lá fora.
Ficamos em silêncio, observando a mulher, que continuava a olhar o horizonte escurecendo do lado de fora.
Saímos da casa e adentramos novamente o mundo terrível e sombrio do lado de fora.
Não saberia explicar bem o porque, mas o ar da noite nunca me parecera tão agradável.
De todos os moradores da pequena cidade, "Seu" Antônio Ferreiro era o mais curioso.
A sala era pequena, confortável. Uma sala comum, de uma casa comum, diria-se, se não fosse por uma peculiaridade. No centro da sala, ocupando o espaço de mais ou menos um metro quadrado, havia uma magnifica gaiola de vidro com uma mulher mais magnifica ainda em seu interior.
No teto da gaiola estavam pendurados pequenos pássaros de vidro, que esvoaçam sobre a esplêndida mulher, que parecia não ter notado nossa presença. Continuava a olhar para o sol que se punha lá fora, através da janela.
- Não é linda? - perguntou "Seu" Antônio.
- Por que está nessa gaiola?
- Ela vive aí - respondeu - Quando ela veio pra cá, ela era tão bela, tão pura. Tive medo que se perdesse, que sumisse no mundo, que algo de mau pudesse lhe acontecer. Por isso construí essa gaiola de vidro. Para protegê-la do mundo terrível que há lá fora. Dentro da gaiola ela não conhece a dor ou o sofrimento. Está livre da maldade que habita o coração dos que vivem do lado de cá das grades. Nunca nada de mau poderá tocá-la.
Graças as barras de vidro é que ela se tornou a criatura esplêndida que é, pois somente dentro de tal estufa poderia florescer tão bela flor. Não existe no mundo mulher alguma que se compare a ela! Dentro dessa gaiola ela floresceu, e dentro dela murchará, sem ser maculada pelo horror que há lá fora.
Ficamos em silêncio, observando a mulher, que continuava a olhar o horizonte escurecendo do lado de fora.
Saímos da casa e adentramos novamente o mundo terrível e sombrio do lado de fora.
Não saberia explicar bem o porque, mas o ar da noite nunca me parecera tão agradável.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Pausa
Vasculhando a superfície da pele, o tempo se dilata. É possível vasculhar poro por poro, imperfeição por imperfeição e, dentro de menos de um segundo, obter um mapa completo da perfeição de uma face.
Nessa pequena suspensão do tempo, observa-se a pele, já não tão jovem, e os pêlos curtos, negros e brancos, que se insinuam em sua superfície. Passeia-se o olhar, que se detém nas hastes negras e curvadas que são os cílios.
E enfim, o olhar. É aí que o tempo pára. Em dois poços negros, circundados por uma faixa de terra, ligeiramente tingida com um verde muito escuro nas bordas do tal poço. Uma faixa de musgos quase imperceptível. É um olhar firme, enraizado, porém, ainda com um que de inocência mal disfarçada.
O relógio volta a correr. Mas a memória retém aquele momento, aquele vasculhar.
A memória de um segundo se expande, e é possível reconstituir num piscar de olhos, poro por poro, imperfeição por imperfeição, toda a perfeição daquela face.
Nessa pequena suspensão do tempo, observa-se a pele, já não tão jovem, e os pêlos curtos, negros e brancos, que se insinuam em sua superfície. Passeia-se o olhar, que se detém nas hastes negras e curvadas que são os cílios.
E enfim, o olhar. É aí que o tempo pára. Em dois poços negros, circundados por uma faixa de terra, ligeiramente tingida com um verde muito escuro nas bordas do tal poço. Uma faixa de musgos quase imperceptível. É um olhar firme, enraizado, porém, ainda com um que de inocência mal disfarçada.
O relógio volta a correr. Mas a memória retém aquele momento, aquele vasculhar.
A memória de um segundo se expande, e é possível reconstituir num piscar de olhos, poro por poro, imperfeição por imperfeição, toda a perfeição daquela face.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Drama!
Era uma menina apaixonadíssima!
Por quem? Oras, isso não interessa!
O importante é que era apaixonadíssima!
Por esse, por aquele, cada um em seu tempo, curto ou longo.
Mas pobrezinha, quanta desilusão, quanta dor.
Umas semana pensava em cortar os pulsos.
Na outra, entupir-se de remédios.
Na seguinte, se imaginava estatelada no chão depois da queda de oito andares.
"É isso" - pensava ela - "vou tomar formicida!"
Mas logo surgia um outro par de olhos verdes, varrendo a idéia para longe.
Era uma menina apaixonadíssima!
E como sofria!
Sofria muito e sempre.
Mas sempre apaixonadíssima!
Por quem? Oras, isso não interessa!
O importante é que era apaixonadíssima!
Por esse, por aquele, cada um em seu tempo, curto ou longo.
Mas pobrezinha, quanta desilusão, quanta dor.
Umas semana pensava em cortar os pulsos.
Na outra, entupir-se de remédios.
Na seguinte, se imaginava estatelada no chão depois da queda de oito andares.
"É isso" - pensava ela - "vou tomar formicida!"
Mas logo surgia um outro par de olhos verdes, varrendo a idéia para longe.
Era uma menina apaixonadíssima!
E como sofria!
Sofria muito e sempre.
Mas sempre apaixonadíssima!
Tolices
O problema é que você me deixa descomposto.
O coração se multiplica. Pulsa na cabeça, no estômago, até mesmo na sola pé! Pulsa em todos os lugares, menos no peito, coitado, tão abandonado.
Você me deixa louco, sabia?
E o problema é que eu adoro a loucura.
O coração se multiplica. Pulsa na cabeça, no estômago, até mesmo na sola pé! Pulsa em todos os lugares, menos no peito, coitado, tão abandonado.
Você me deixa louco, sabia?
E o problema é que eu adoro a loucura.
segunda-feira, 21 de março de 2011
Memória
Hoje me aconteceu uma coisa curiosa no caminho de volta pra casa.
Eu acabara de descer do ônibus quando, vindo do outro lado da rua, passa por mim um senhor de uns cinquenta anos, cantando muito alto. Enquanto as outras pessoas que esperavam pra atravessar a rua olharam-no com estranheza, eu sorri, sentindo uma leve inveja daquela criatura.
Atravessei a rua e continuei caminhando, cantarolando uma canção.
Eis que, sem mais nem menos, completamente alheia a meus pensamentos no momento, uma lágrima escorre. Foi então que percebi a música que estava cantando. Uma música que me remetia a uma história ainda um pouco dolorosa mas que, como muitas outras coisas, estava jogada em algum canto da memória.
Aquela lágrima foi única, solitária.
Tive pena de enxugá-la, e deixei que secasse com o vento.
Eu acabara de descer do ônibus quando, vindo do outro lado da rua, passa por mim um senhor de uns cinquenta anos, cantando muito alto. Enquanto as outras pessoas que esperavam pra atravessar a rua olharam-no com estranheza, eu sorri, sentindo uma leve inveja daquela criatura.
Atravessei a rua e continuei caminhando, cantarolando uma canção.
Eis que, sem mais nem menos, completamente alheia a meus pensamentos no momento, uma lágrima escorre. Foi então que percebi a música que estava cantando. Uma música que me remetia a uma história ainda um pouco dolorosa mas que, como muitas outras coisas, estava jogada em algum canto da memória.
Aquela lágrima foi única, solitária.
Tive pena de enxugá-la, e deixei que secasse com o vento.
quarta-feira, 16 de março de 2011
Duvidem!
Cada linha escrita, cada frase, cada palavra, cada sílaba é uma mentira bem contada. Ou não.
Todas as noites, quando entro aqui e releio o que escrevi, mesmo que tenha sido a dez minutos atrás, eu tenho vontade de jogar tudo fora, de apagar e começar de novo. Uma folha em branco.
Eu acabo de escrever, e já nem sei mais quanto daquilo me pertence, quanto daquilo realmente fala de mim.
Detesto quase tudo aquilo que escrevo.
E quanto mais verdadeiro, pior.
Amo as mentiras, que me fazem esquecer toda essa realidade suja.
Eu espero. E o que espero?
Uma grande e fantástica mentira.
Eu lhes peço encarecidamente:
Duvidem de tudo o que seus olhos podem ver.
Duvidem até mesmo da cor do vento.
Duvidem até o último segundo.
Duvidem.
Todas as noites, quando entro aqui e releio o que escrevi, mesmo que tenha sido a dez minutos atrás, eu tenho vontade de jogar tudo fora, de apagar e começar de novo. Uma folha em branco.
Eu acabo de escrever, e já nem sei mais quanto daquilo me pertence, quanto daquilo realmente fala de mim.
Detesto quase tudo aquilo que escrevo.
E quanto mais verdadeiro, pior.
Amo as mentiras, que me fazem esquecer toda essa realidade suja.
Eu espero. E o que espero?
Uma grande e fantástica mentira.
Eu lhes peço encarecidamente:
Duvidem de tudo o que seus olhos podem ver.
Duvidem até mesmo da cor do vento.
Duvidem até o último segundo.
Duvidem.
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